Medo de dirigir, ansiedade ao dirigir e fobia

Fábio Augusto Caló
Publicado em: 31/05/2005

 

Entrar no carro, dar a partida, engatar a marcha, soltar o freio-de-mão e dirigir até o trabalho é uma rotina comum a muitas pessoas em Brasília e em várias outras cidades no mundo inteiro. No entanto, o que é rotina para alguns é dor e tormento para outros. O medo de dirigir atinge um número considerável de pessoas, muitas das quais não procuram tratamento e acabam por levar uma vida de dependência e privações. Certamente, você conhece alguém que possui habilitação, tem um automóvel, mas não dirige. Essa pessoa pode ter mais do que uma simples ansiedade ou um medo passageiro, ela pode ter fobia de dirigir.

Graeff (1989) propõe que uma reação de medo é um conjunto de respostas comportamentais e neurovegetativas que adverte da ocorrência de dano iminente quando se é confrontado com uma ameaça à integridade física de um agressor ou de outro estímulo ambiental aversivo. Quando o perigo não se mostra tão evidente, mas vago e persistente, os sinais de advertência que provocariam o medo não são percebidos conscientemente, determinando, apenas, um estado de apreensão, denominado ansiedade.

Segundo Falcone (1995), a diferença entre fobia e ansiedade é basicamente quantitativa. Isto é, depende de quanto tempo dura o episódio de ansiedade, da intensidade de ansiedade que a pessoa experimenta, da freqüência em que esta ocorre, do nível em que o comportamento de esquiva (evitação) é precipitado pela ansiedade e de como a pessoa que está ansiosa avalia essa ansiedade.

Quando se tem medo de dirigir, há um estado de apreensão (ansiedade) significativo, porém controlável e um nível de atenção maior quando se está dirigindo. Diante do medo, pode-se até desejar que outras pessoas dirijam em ruas onde o trânsito é mais movimentado ou nas rodovias. Todavia, sendo necessário, a pessoa assume o volante do carro.

A fobia de dirigir, por outro lado, tem como características uma ansiedade e/ou medo intensos e algumas reações corporais como sudorese, tremores nos braços e pernas, taquicardia e boca seca. Tudo isso experienciado diante do ato ou da simples possibilidade de dirigir. Após uma ou mais experiências como essa, a pessoa tende a se esquivar de dirigir.Inventa,muitas vezes, desculpas para si e para os familiares e amigos com o objetivo de evitar críticas: “Prefiro andar porque é mais saudável” ou “Esse carro é muito grande, vou comprar um menor”. Segue-se, então, uma vida cheia de limitações, onde não se pode visitar amigos que morem longe ou ir ao teatro porque a peça termina tarde. Torna-se dependente do filho que tirou habilitação ou dos amigos que dirigem normalmente. A fobia pode ser impeditiva para que se obtenha a CNH – Carteira Nacional de Habilitação ou pode fazer com que se abandone o comportamento de dirigir tão logo se consiga a habilitação.

Alguns pensamentos disfuncionais distintos, geralmente, se fazem presentes, o que revela os focos diferenciados dos medos intensos relacionados à fobia de dirigir: “tenho medo de dirigir no trânsito movimentado”, “o carro vai pular e vou perder o controle”, “e se eu me sentir ansioso(a) quando estiver dirigindo?”, “posso causar um acidente, me ferir e ferir outras pessoas”, “posso ser criticado(a) por dirigir devagar” e “se alguém buzinar para mim, terei a certeza que estou fazendo uma grande besteira”

Em suma, a ansiedade ao dirigir pode ser definida como um estado psicofisiológico de apreensão, podendo ser experienciada, inclusive, no dia anterior àquele em que a pessoa dirigiria. O medo de dirigir seria um aumento desse estado de apreeensão, sendo que esse estado estaria diretamente e conscientemente relacionado ao ato de dirigir. A fobia seria um estado ainda mais intenso, que atrapalha o desempenho da pessoa ao dirigir e até impede a mesma de fazê-lo. Cabe ressaltar, entretanto, que “fobia” é um termo técnico-científico para o estado corporal commente definido como “medo” no senso comum. Sendo assim, e para efeito de entendimento sobre o problema, que atinge pessoas em todas as camadas sociais, econômicas e culturais, os dois termos podem ser utilizados sem a distinção requerida no contexto acadêmico.

Qual o perfil das pessoas que têm medo de dirigir?

Alguns estudos (Corassa, 2000; Bellina, 2003) têm levantado informações sobre o perfil das pessoas que apresentam medo de dirigir (ou fobia). São pessoas extremamente responsáveis, organizadas, detalhistas, sensíveis e inteligentes. Em geral, têm medo de errar, ressentem-se com as críticas e exigem de si e dos outros uma conduta sempre acertada com desempenho elevado. Quando dirigiram (ou se ainda dirigem) observaram sempre as falhas do outro como não acionar a seta para mudar de faixa. Provavelmente, estiveram (ou estão) muito atentas à buzina dos outros carros, sempre achando que estão fazendo algo de errado. Sofrem antecipadamente pelo erro que podem cometer ou ainda não cometeram. São pessoas que têm um nível elevado de ansiedade generalizada, podendo, inclusive ter um transtorno como fobia social, transtorno do pânicoTEPT ou TOC.

Bellina (2003) apresenta uma pesquisa realizada com 4000 pessoas com medo de dirigir em que 28% dessas pessoas nunca sofreu acidente automobilístico, e 40% sofreu, mas não estavam dirigindo. Esse dado mostra que as causas do medo de dirigir, como de outras fobias não são, necessariamente, relacionadas diretamente ao objeto/ evento fóbico. A mesma pesquisa mostra que 85% dos entrevistados eram do sexo feminino, o que revela que a mulher é grande maioria no diagnóstico para fobia de dirigir. A maioria das pessoas possuía entre 30 e 48 anos e 85% possuíam carro próprio.

Etiologia e tratamento

O sentimento de medo excessivo e irracional de dirigir associado à evitação do ato de dirigir ou ansiedade intensa ao dirigir com a presença de palpitações, suores excessivos, tremores, tonturas, mal estar gástrico, dificuldade psicomotora, vontade de sair correndo pode ser classificado como um transtorno fóbico específico pelo DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Mas, de acordo com Taylor, Deane e Podd (2000), tal classificação não é um consenso e diferenças na classificação poderiam determinar investigação e tratamentos diferentes.

Eventos ontogenéticos (história de vida da pessoa) e sócio-culturais têm sido considerados no momento de investigar os fatores que determinam a fobia. Não há um consenso para a Psicologia sobre sua origem exata, mas o tratamento baseado nas teorias existentes é possível e produz resultados significativos na grande maioria dos casos. Dentre as abordagens de intervenção utilizadas, destaca-se a Terapia Comportamental pela sua eficácia.

Abaixo, seguem algumas orientações para quem deseja vencer o medo/fobia de dirigir baseadas na obra de Corassa (2000):

1) Compasse a sua respiração. O ansioso tem uma respiração rápida e “curta”, utilizando, apenas, o tórax. De boca fechada, inspire lentamente pelo nariz e vá sentindo o ar chegar até os seus pulmões. Deixe seu abdômen expandir enquanto inspira, utilizando o músculo diafragma. Depois expire devagar pela boca.

2) Faça algum tipo de atividade física e relaxamento muscular, para produzir endorfinas, substâncias que neutralizarão a química da ansiedade.

3) Inicie uma aproximação com o carro mesmo dentro da garagem. Entre, ajuste o banco, sinta o espaço interno, ligue e desligue o carro.

4) Ainda dentro da garagem, ligue o carro e faça pequenos movimentos para frente e para trás.

5) Dê voltas no quarteirão em horários sem movimento. Procure ruas tranqüilas e que não tenham crianças.

6) No começo, escolha sempre um ou dois trajetos. Isto evitará ansiedade.

7) Comprometa-se consigo mesmo(a), pelo menos duas vezes por semana para praticar o exercício de dirigir. Esta prática deve ser considerada como uma tarefa do dia-a-dia. O hábito diário é que fará você adquirir confiança.

8) Quando se sentir confiante, inicie trajetos maiores ou que tenham subidas e uma maior quantidade de veículos.

Infelizmente, poucas são as pessoas que conseguem superar sozinhas o medo de dirigir. A essas pessoas é aconselhável procurar um tratamento especializado com um psicólogo.

Referências

American Psychiatric Association (1995). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV). Porto Alegre, Ed. Artes Médicas Sul, 1995, 4a ed. 

Bellina, C. (2003) Fobia de Dirigir. Revista da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, 42, 30-32.

Corassa, N. (2000) Vença o Medo de Dirigir. São Paulo, Gente.

Falcone, E. (1995). A relação entre o estresse e as crenças na formação dos transtornos de ansiedade. Em Zamignani (Org.), Sobre Comportamento e Cognição Vol. 3:. Santo André: ARBytes.

Graeff, F.G. (1989). Drogas Psicotrópicas e Seu Modo de Ação. São Paulo, EPU. 

Taylor, J., Deane, F. e Podd, J. (2000). Determining the focus of driving fears. Journal of Anxiety Disorders, 14, 453-470.

InPA - Instituto de Psicologia Aplicada
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