Psicologia e Cirurgia Plástica: Quando a busca pela beleza pode causar problemas.

 

Adilson K. P. Junior
Publicado em: 15/07/2002

 

Vivemos em um mundo que cultiva a aparência física como um atributo desejável por todos os que tem ou almejam ter sucesso. Nunca se viu uma procura tão grande por técnicas que nos façam melhorar nossa aparência física: academias de ginástica, clínicas de estética, cabeleireiros e é claro, cirurgiões plásticos.

A própria cirurgia plástica sofreu um avanço considerável nas últimas décadas, tendo em mãos hoje técnicas que deixam o mínimo possível de cicatrizes aparentes e cujos resultados podem ser visualizados antecipadamente com precisão. Tal segurança, aliada ainda a popularização e acessividade dos preços, angaria uma legião de pessoas: mulheres e, especialmente hoje, homens que buscam a cirurgia plástica como um modo de melhorar a aparência física.

Um psicólogo se perguntaria que tipo de motivação leva uma pessoa comum a procurar tal serviço, e, quais as conseqüências desse serviço sobre o comportamento da pessoa?

A motivação parece ser óbvia: a pessoa quer se tornar mais bonita, se sentir melhor consigo mesma…. o que não é problema nenhum, não é mesmo?

Mas e se por acaso, esta pessoa pensa que, se tornar bonita é o único meio que ela vê para conseguir atenção no seu meio social,? E se ela pensa que parentes, amigos, namorados ou namoradas, irão gostar mais dela por agora ter uma aparência diferente? Daí teremos uma motivação para cirurgia plástica ligada a uma possível baixa na auto-estima, que advém possivelmente da falta de algumas habilidades sociais que dariam a esta pessoa destaque no seu ambiente social e que não necessariamente estão ligadas a aparência: um bom papo, colocar suas idéias e opiniões, ” ter personalidade”, ter a capacidade de seduzir ou de cortejar aqueles que lhe atraem. Todos concordam que, uma pessoa bonita, mas que não sabe conversar, interagir com os outros e é inconveniente, não vai se dar bem socialmente, por mais bonita que seja.

Outro exemplo também ligado a esta motivação é o que pode ocorrer nos casamentos: cirurgia plástica como “bote salva vidas” na fantasia de um ou dois cônjuges. Após problemas, desgaste, rotina, stress, a relação pode não ter ficado tão mais prazerosa como era antes, e, com o envelhecimento, podem surgir fantasias de que um dos cônjuges pode ser trocado por uma pessoa mais nova. Então a cirurgia pode ser vista como um meio de salvar ou dar vida nova à relação. Caso isso não aconteça a frustração será grande, também revertendo em problemas para o médico cirurgião, que com certeza será culpado por não ter proporcionado o resultado esperado pelo paciente, e que na verdade era um resultado que ia além do resultado estético. É bom que se coloque, muitos cirurgiões se preocupam em avisar aos seus pacientes que esse resultado que vai além da estética pode não ser alcançado e que isso é trabalho para um profissional de Psicologia. Mas mesmo assim o paciente pode não dar ouvidos, ou procurar outro cirurgião não tão preocupado com estas questões.

A mídia é um grande meio motivador para a procura de cirurgia plástica. Os meios de comunicação constantemente, através de propagandas, novelas, revistas sociais, etc, associam beleza física a status, sucesso, popularidade. Então desde pequenos, aprendemos que certos tipos de padrão de beleza são os corretos e são os que devem ser buscados e consumidos. É interessante notar que o padrão de beleza propagandeado não se encaixa num padrão de beleza natural: musculatura definida e abundante, seios grandes e firmes, pele lisa e sem nenhum defeito. Todos estes padrões necessitam de serviços para poderem ser adquiridos: ou seja, são bens de consumo tanto quanto um pãozinho francês.

A busca por tal aparência estética “não natural”, acarretará a não aceitação da nossa própria aparência natural. Se eu não reproduzo os padrões considerados corretos, então eu não vou produzir conseqüências desejadas por mim no meu meio ambiente: não vou conseguir ser gostado, ser desejado, não serei popular, não aparecerei como indivíduo no meu grupo social (muitas dessas coisas podem ser apenas fantasias). A conseqüência desse tipo de atitude é a de não saber quem se é de verdade, buscar valores não pessoais e naturais como referência para se sentir digno e importante, não valorizar o que é pessoal, despersonalizar-se e não valorizar as próprias conquistas.

Por outro lado, a cirurgia plástica pode ser extremamente benéfica para pessoas que não dependam unicamente dela para se sentirem mais felizes, e com isso não fantasiarão resultados que não se concretizarão posteriormente. Pessoas com habilidades sociais estabelecidas: que sabem conversar, se destacar no seu grupo social, sabem ser desejadas, tem consciência do seu valor e do que podem fazer, com certeza irão curtir a nova aparência muito mais plenamente e de forma mais saudável. Aqui a cirurgia irá unicamente somar aos dividendos sociais e pessoais. Um casal que sabe negociar, superar diferenças e reinventar a relação dia após dia, terá na cirurgia plástica algo mais para adicionar no seu convívio, vida sexual e social. Uma pessoa que aceita a si mesma, sabe buscar seus valores na sua própria experiência, se sente digno e importante, terá na cirurgia um grande complemento dessas conquistas.

O Papel da aliança multidisciplinar entre o psicólogo e o cirurgião plástico, visa esta última realidade: Proporcionar uma satisfação completa ao indivíduo. Ao psicólogo cabe auxiliar o indivíduo a melhorar sua auto-estima, habilidades sociais, conhecer a si mesmo e suas reais motivações, colocar o pé no chão quanto as suas expectativas e auxiliar a pessoa a se aceitar e se sentir bem como ser humano acima de tudo. Ao cirurgião cabe dar a forma final, estética e que proporciona ao indivíduo uma potencialização dos seus ganhos pessoais.

InPA – Instituto de Psicologia Aplicada
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