Evitando o desgaste da relação: a “arte” do diálogo no casamento

“Meu marido não dá a mínima para o que eu digo”, “Ela faz de tudo um motivo para discussão”,“Meu esposo não fala nada, nunca sei de seus sentimentos”, “Ela fala demais e cobra para que eu me expresse como ela”: estes são alguns exemplos de comunicação comuns em consultórios no atendimento a casais. Não é raro encontrar pessoas que destacam as diferenças entre os comportamentos do cônjuge durante o namoro e na época do casamento, sobretudo no que se refere à comunicação interpessoal. Mas, afinal, como é possível melhorar a qualidade de comunicação no cotidiano do casal?

No dia-a-dia a dois, existe uma série de decisões que o casal precisa resolver consensualmente, como por exxemplo: se vão ou não ter filhos, quais os investimentos financeiros que precisam realizar ou para onde viajarão nas próximas férias. Assim, a comunicação ambígua ou conflituosa prejudica bastante a resolução dos problemas entre o casal: nela, um deles se expressa e a mensagem enviada diverge da mensagem recebida pelo interlocutor. E as consequências disso são bem previsíveis: um se magoa e o outro se chateia, sentindo-se culpado e também incompreendido.

Uma pesquisa [1] revelou diferenças significativas quanto ao entendimento das comunicações entre parceiros com bom ajuste conjugal e os que estavam em um relacionamento desgastado: os casais com dificuldades no relacionamento entendiam menos o que cada um dizia ou queria dizer do que os casais ditos felizes. Além disso, os casais em conflito apresentaram o mesmo desempenho que os casais felizes na decodificação das mensagens de pessoas estranhas. Isso quer dizer que todo o processo de comunicação – capaz de funcionar plenamente fora do casamento – às vezes trilha como um trem desgovernado nas relações conjugais desgastadas.

Outros problemas de comunicação se devem às diferenças quanto aos meios de expressão. Homens e mulheres divergem em relação à comunicação verbal e não-verbal, e as dificuldades quanto à adaptação de formas diferentes de expressão são comumente alvos de desentendimento. Maltz e Borker (1982) destacam os estilos de diálogos baseados no gênero: em geral, as mulheres costumam fazer mais perguntas que os homens, o que pode indicar o quão satisfatório é para elas investirem nas relações com as pessoas. Por outro lado, os homens dificilmente fazem perguntas pessoais, pois para eles, as perguntas geralmente são sinônimas de intromissão e invasão de privacidade [2].

Quando as mulheres reclamam que seus namorados/maridos são monossilábicos ou reticentes, que não costumam falar acerca de si mesmos, sem perceberem, acabam criando contextos coercitivos para que eles se expressem, cobrando-os que falem. Neste cenário, são comuns as perguntas. Estas, quando mal empregadas ou formuladas podem causar conflitos, sobretudo aquelas do tipo por quê, pois pode colocar o interlocutor na defensiva, mesmo que o outro esteja a emitindo despretensiosamente. Tal pergunta faz o outro percebê-la como negativa, pois está intrínseca a necessidade da explicação e da obrigatoriedade de haver causa para tudo. Se encadeada por outro por quê, o diálogo parecerá um interrogatório, aparentando falta de confiança ou outras suspeitas.

Uma alternativa no que se refere aos por quês é a reformulação da pergunta, de modo a torná-la menos aversiva. Por exemplo, ao invés de “Por que você ainda não veio para casa almoçar?”, pode-se perguntar de modo mais aberto “O que aconteceu que você ainda não veio almoçar no horário combinado?”. Outro exemplo é trocar o “Quando o jantar ficará pronto?” por “Me avisa quando o jantar ficar pronto?”. Seguindo o mesmo raciocínio, eis outros exemplos de trocas de diminuem a carga aversiva do conteúdo a ser dito: “Quem é ‘Fulana de Tal’ que você adicionou no facebook?!” e “Vi que você adicionou ‘Fulana de Tal no facebook, mas acho que nunca a vi antes. De onde você a conhece?”.

Algo que também é necessário ser observado é o tom de voz e a expressão facial diante de falar algo que incomoda ao cônjuge. Ao se comportar dessa forma, expressando sentimentos, opiniões e desejos de forma honesta, direta e apropriada, coerente com o que se sente e tendo o cuidado de não ferir os sentimentos dos outros ou de violar seus direitos, o sujeito está sendo assertivo ou socialmente habilidoso, o que traz ganhos para a relação.

Obviamente, para que haja essa mudança, é necessário haver autocontrole emocional. Além disso, o comportamento é aprendido e pode ser modificado. Para tanto, é necessária a exposição aos contextos e emissão de novos comportamentos. A partir de então, ao verificar os efeitos dele no ambiente (por exemplo, a mudança no comportamento do (a) parceiro (a) ou a eficácia de resolução do problema), pode-se manter o novo comportamento no seu repertório. É como ser um motorista: fazer isso é similar a aprender uma nova forma de dirigir. A princípio, pode parecer um esforço, mas com o decorrer do tempo se torna algo automático.

Outro aspecto a ser ressaltado nas interações verbais é a qualidade da audiência. Às vezes a mulher se queixa de que o marido não lhe escuta e este se revolta, muitas vezes repetindo literalmente o que a esposa havia dito. Pesquisas citadas em Beck (1995) tem demonstrado que sinais como “u-hum” e similares são empregados de maneira diferente conforme o gênero. Ao ouvir, as mulheres são bem mais propensas a emitirem sons (“u-hum”“estou entendendo”, entre outros) quando querem indicar que estão acompanhando o discurso, enquanto que homens frequentemente optam pelo silêncio, utilizando-as quando querem expressar acordo ao que está sendo dito.

Como o diálogo é uma interação, é interessante que o ouvinte emita sinais verbais e não-verbais que indiquem que se está acompanhando. Se uma pessoa fala e o ouvinte não oferece retorno quanto ao que está ouvindo, é possível que haja: incompreensão quanto ao conteúdo, desinteresse na conversa, dúvida quanto a se o sujeito está mesmo ouvindo, entre outros. Caso você seja do tipo silencioso (a), talvez seja útil emitir sinais não-verbais (como balançar afirmativamente a cabeça, piscar de modo mais demorado, fixando o olhar em quem está falando), pois assim evitaria o desgaste da outra pessoa em se sentir desprestigiada e até de escutar com frequência a pergunta incrédula “você está realmente ouvindo?!”.

Ademais, para manter o fluxo da conversa e também para esclarecer os pontos de conflito, sempre que possível verifique seu entendimento quanto ao que está dito, repetindo o que o outro falou. Por exemplo, “Você está me dizendo que quer que eu assuma as prestações do carro a partir de agora?”.

Em uma interação, pode-se ter dificuldade em discriminar o momento mais oportuno para uma interrupção. Assim, uma dica é fazer uso de sinais não-verbais sutis, como o toque leve no braço, mão ou perna do falante. Dessa forma, o outro vai perceber que existe algo que precisa dizer e isso diminuirá a probabilidade do curso da conversa descarrilar. Outra dica é verificar pausas no discurso para se pronunciar: se, enquanto você já tiver iniciado o discurso, esta pausa for logo retomada pelo falante, um pedido de desculpas muitas vezes é o suficiente para que o interlocutor lhe conceda a palavra ou note a sua necessidade em falar.

Durante um diálogo, é interessante também que a pessoa seja o mais concisa possível naquilo que tem a dizer. Além disso, ser específico, evitando comentários vagos e amplos também costuma ser útil para a eficácia da comunicação. Um exemplo disso é trocar o “Queria tanto que você fosse mais organizado (a)…” por “Gostaria que você colocasse a toalha no varal depois do banho”.

Além disso, algumas colocações podem ser evitadas para haver melhor qualidade na comunicação, como os xingamentos e insultos. Desqualificar alguém é apenas um gatilho para uma discussão maior, uma provocação e em nada descreve o que o sujeito fez que você não gostou. Uma alternativa para isso é direcionar a crítica ao comportamento e não à pessoa. Assim, descreva o comportamento: ao invés de chamar o parceiro de “egoísta”, descreva o que o sujeito fez ou suas expectativas (como “eu esperava que você deixasse um pouco de refrigerante para mim”).

Outros fatores a serem evitados são as expressões absolutas “sempre” e “nunca”: além de não serem exatos, logo são sucedidos de refutação do cônjuge e, muito provavelmente, de uma briga improdutiva que afasta o casal da resolução do problema em questão. Assim, ao invés de “Você nunca me ajuda a lavar a louça” um “Você pode me ajudar com as louças hoje?”diminuiria as chances de desagrado do (a) parceiro (a).

Na qualidade de ouvinte, por sua vez, algumas atitudes evitam o desgaste da relação. Por exemplo, diante de uma acusação (como “Você só quer saber do trabalho”), verifique se existem pontos de acordo ou de entendimento. Se sim, concorde até onde o fato for verdadeiro, explicando-se em seguida. Por exemplo, “É verdade, nesses dias tenho me preocupado em trabalhar mais para ganhar hora extra”. Desconsidere as afirmações negativas: quando se está com raiva, o que é dito tem a função de colocar o outro como culpado ou mesmo para sentir a sua dor.

Se durante uma conversa você verificar mágoa na outra pessoa diante de alguma atitude sua, um pedido de desculpas é algo plausível. Quem ama se arrepende dos danos que causa ao outro por alguma atitude sua. Mesmo que você tenha razão na discussão, verifique se há algo que possa fazer para ser empático ao sofrimento do outro, ou se cabe algum pedido de desculpas por algo que poderia ser evitado para não provocar tanta dor na outra pessoa.

A comunicação no casamento é, junto com o amor e o sexo, uma das ferramentas responsáveis pela qualidade e longevidade do relacionamento. Conviver com outra pessoa requer não só o entrelaçamento das vidas rotinas, mas também o respeito quanto às individualidades de cada um, a tolerância quanto às diferenças e dificuldades. O zelo não está presente apenas no afago: está também no do que é dito ou transparecido. Sendo assim, priorizar uma comunicação de qualidade no casamento é fundamental para um relacionamento saudável, não só do casal, mas de toda a família.


[1] Noller, P. (1981). Gender and marital adjustment level differences in decoding messages from spouses and strangers. Journal of personality and social psychology, 41: 271-278.

[2] Beck, A. T. (1995). Para além do amor: como os casais podem superar os desentendimentos, resolver conflitos e encontrar uma solução para os problemas de relacionamento através da terapia cognitiva. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos.

Juliana de Brito Lima é Psicóloga (CRP 11ª/05027), formada pela Universidade Estadual do Piauí e especializanda em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento – IBAC. É membro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC. Atua como psicóloga clínica em Teresina-PI (Clínica Lecy Portela, onde atende criança, adolescente e adulto) e como psicóloga forense (Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão), em Caxias-MA. Atuou como pesquisadora no Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná/ NAC-UFPR (linha de pesquisa “Desenvolvimento da criança e do adolescente em situações adversas”)  e atualmente está vinculada ao Laboratório de Neurociências Cognitivas da Universidade Estadual do Piauí- UESPI.

Contato: juliana@www.inpaonline.com.br.

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