Pensando bem, eu não quero mais ouvir a sua voz

 

Não, eu não quero mais ouvir a sua voz, seja na ligação telefônica, seja numa lembrança “histriônica”. E não sinto raiva porque esse sentimento é vil, pouco adequado à pessoa lapidada que sou. Sim, tive boa educação, boa formação acadêmica e até frequento religião. Por isso e por mais uma arroba de motivos, eu não tenho raiva de você. Não, eu realmente não tenho!

Mas, pensando bem, talvez eu tenha sim um átomo de raiva, já que você me fez sofrer. É, você me fez sofrer! Você e essa boca gostosa, você e esse sorriso desconcertante, você e essa pele com o cheiro que eu desejei transformar em essência para inalar nas madrugadas frias que me fazem acordar procurando o seu corpo. No átimo de saudade, é esse seu cabelo longo que tenho vontade de segurar quando você me foge em meio ao pensamento bom.

Pensando bem, tenho muita raiva de você, já que você me fez sofrer. É isso ai! Tenho muita raiva e, talvez um pouco de culpa por não ter conseguido me controlar em função das incontáveis divergências que tivemos diante de naturezas tão díspares. Você é dessas pessoas inconstantes, passionais, que se apaixonam hoje sem se importar com o dia do amanhã que certamente virá, ou viria, se você fosse apresentada ao senhor equilíbrio.

O meu erro? Penso que foi amar você mais do que amar a mim mesmo. Sim, abandonei projetos, trabalho, meus prazeres e interesses pessoais… Foi muita coisa deixada em nome de um só projeto, o de ter essa sua beleza única, a qual foi esculpida como quase perfeita obra da natureza. Desejei cada pedacinho desse seu corpo de linda fêmea da espécie humana. Antes que pergunte, devo dizer que sim, eu tenho desejos carnais sujos e pouco evoluídos, mas quem não os tem? E quem nunca colocou esses embriagantes desejos a frente da razão?

“O coração tem razões que a própria razão desconhece
Faz promessas e juras, depois esquece
Seguindo este princípio você também prometeu
Chegou até a jurar um grande amor
Mas depois esqueceu”

Acreditei em você! Não, pensando bem, não acreditei. Acreditei mesmo foi no sonho de construir felicidade como estado alcançado e inamovível ao seu lado. Foi ouro de tolo, trevo de quatro folhas ou qualquer outra bobagem na qual, estupidamente, investimos energia, tempo de vida que não volta e boa dose da confiança que ainda tenho no amor, o mais nobre dos sentimentos.

Pensando bem, eu também devia ter tido com o senhor equilíbrio. Devia ter me observado mais, tateado mais as minhas inseguranças, entendido mais as minhas amplas e variadas necessidades, definido claramente o meu espaço individual e, com tudo isso, ter compreendido que eu não podia ter trocado o meu reino por essa relação. Não que eu não acredite na possibilidade do amor, eu até acredito, mas acho que é possível o amor conviver com os vários seres que sou. Sou mais que um sentimento, mais que noites intensas de prazer, mais que o investimento que fiz em você e mais que um nobre projeto de amor, ainda que ele tenha como propósito a busca da família que tanto desejei ter contigo.

Mais do que sentir e responder ao amor que tivemos, eu devia ter me enxergado mais nos três momentos, passado, presente e futuro. Essa análise em três tempos me daria clareza sobre quem fui, quem sou ao seu lado e sobre quem quero ser, com ou sem você. E, feito isso, por mais que você me demandasse, eu teria forças a mais para definir o limite entre o saudável e o insano, entre mim e entre nós. Não, eu não devia ter apostado todas as fichas em você, por mais que você fosse quem você é e por mais que seja o que é para mim.

Pensando bem, de uma coisa estou certo, eu não quero mais ouvir a sua voz.

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