Terapia com realidade virtual automatizada ajuda pessoas a superarem seus medos de altura

A Oxford VR desenvolveu um programa terapêutico de realidade virtual no qual pessoas completam desafios como colher frutas ou resgatar um gato de um galho alto para superar o medo de altura. Foto: Oxford VR

Cientistas acreditam que programas de computador que não exijam a presença de um terapeuta, podem ser usados para tratar outros problemas de saúde mental. Novas pesquisas apontam que o medo de altura pode ser superado com ajuda de um terapeuta virtual, especialistas disseram que as descobertas aumentam as esperanças de que a realidade virtual pode desempenhar um papel fundamental na luta contra outros problemas de saúde mental.

De acordo com YouGov survey, de 2014 o medo de altura é mais comum no Reino Unido do que o medo de aranhas, cobras ou de estar em um avião, em 23% dos britânicos adultos “tem muito medo” de altura, e 35% tem um pouco de medo. “É simplesmente o tipo mais comum de fobia, e até onde sabemos muitas pessoas não buscam tratamento apesar disso apresentar muitas implicações na vida das pessoas” aponta Daniel Freeman, professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford e o autor principal do estudo. Freeman também é o co-fundador do Oxford VR, a empresa que estava envolvida no estudo.

“O que é extremamente encorajador aqui é a dimensão dos efeitos do tratamento; são realmente consideráveis” apontou.

Freeman percebeu que o medo de altura era o primeiro aspecto de saúde mental a ser abordado com realidade virtual. Porém, ele aponta que as primeiras abordagens usando a realidade virtual foram como uma ajuda durante a terapia, enquanto o novo sistema significa que um terapeuta treinado nem precisa estar presente. Esse estudo vem alguns meses após o Instituto Nacional de Saúde Mental anunciar que estão investido 4 milhões de euros em terapia com realidade virtual para problemas de saúde mental – um projeto que Freeman está conduzindo. A equipe tem explorado constantemente o uso de realidade virtual para problemas que vão de esquizofrenia a depressão, sendo assim Freeman alegou rapidamente que mais terapeutas especializados são necessários.

Publicado no the Lancet Psychiatry, Freeman e colegas descrevem como eles dividiram 100 adultos que tinham medo de altura randomicamente em dois grupos: 49 foram convidados a usar um headset por meia hora duas ou três vezes por semana durante uma quinzena, enquanto aqueles no outro grupo, como de costume, continuaram sem um tratamento específico.

No total, 47 pessoas realizaram pelo menos uma sessão de realidade virtual e completaram cerca de quatro sessões e meia na média. A terapia envolve um treinador de avatar realizando uma avaliação antes de convidar o indivíduo a escolher um andar de um prédio virtual e pedir que ele realize atividades, como resgatar um gato de um galho, para explorar os pensamentos por trás de seus medos. Indivíduos tiveram seu medo de altura avaliados através de uma série de perguntas no começo do estudo, depois no final de duas semanas do período de terapia, e de novo quando duas semanas se passaram.

Os resultados revelaram que todos os 49 participantes do grupo de realidade virtual apresentaram uma significativa melhora em sua fobia, com a pontuação de um questionário pessoal sobre medo de altura caindo 68% em média. A pontuação de quem não recebeu essa terapia mostram uma pequena queda, cerca de 3% em média. “É melhor do que você esperaria se você procurasse um terapeuta cara a cara” Freeman disse dos resultados “Nós não fizemos uma comparação direta, porém se você olhar para outros testes de tratamentos os resultados serão bem melhores”

A equipe também encontrou que os benefícios ainda são vistos duas semanas depois da terapia com realidade virtual, e disse que houveram pequenos efeitos colaterais como náuseas, por causa do uso de fones de ouvido. Freeman disse que, enquanto alguns podem preferir ver um terapeuta, os resultados mostraram que há benefícios individuais advindos da terapia com realidade virtual, e acrescentou que algumas pessoas não procuram tratamento para problemas de saúde mental porque eles não querem falar com terapeuta.

Entretanto, o estudo tem limitações, incluindo que a queda do medo de alturas foi baseado em um questionário pessoal, e não ficou claro quais aspectos da terapia virtual foram eficazes. O estudo também não analisou se os efeitos foram mantidos a longo prazo. Dr Warren Mansell, um psicólogo clínico da universidade de Manchester, que não estava envolvido no estudo, disse que não estava surpreso com o fato da realidade virtual ter se mostrado eficaz, mas ainda não está claro se foi melhor do que a terapia convencional cara a cara, e exposição na vida real, ou como decidir qual abordagem um indivíduo deve receber. Porém, Mansell complementa, realidade virtual é útil, pois oferece o potencial para os indivíduos controlarem cuidadosamente as situações a que estão expostos, o que pode ser difícil no mundo real, mas, diz ele, é um aspecto importante dessa terapia.

Mansell também estava otimista de que a tecnologia pode ser usado para além das fobias. “Por exemplo, a maioria das pessoas com bipolaridade tem um quadro de ansiedade, por exemplo”, ele disse. “Medo é a raiz da psicose e se precisa de mais soluções inovadoras para ajudar pessoas com problemas mais idiossincráticos.”

Tradução: Leonardo Murilo Leão – Acadêmico de Psicologia PUC-GOIÁS

Texto Original: https://www.theguardian.com/science/2018/jul/11/automated-virtual-reality-therapy-helps-people-overcome-phobia-of-heights

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