Brasília, a capital da solidão

Psicólogo em Brasília, DFÉ porque Brasília não tem esquinas que as pessoas não se relacionam! Ouvi muito essa afirmação ao longo da minha adolescência e até hoje ainda ouço pessoas dizerem isso, como se repetissem o que também ouviram de outrem sem qualquer cuidado de refletirem a respeito. Seja reflexão sobre a descrição apresentada, falta de relação nessa cidade, ou sobre a explicação para tal.

Mas, não são apenas os sulistas, nortistas ou nordestinos que relatam insatisfação em relação a esse aspecto da cidade. Os próprios brasilienses se inquietam com a dificuldade para estabelecer relações interpessoais por essas bandas. Aqueles que estão bem inseridos nos seus casamentos, nas suas famílias, no seu grupo social do trabalho, da igreja ou do clube que freqüentam, podem discordar. Mas, em meio a discordância devem parar e pensar quantas vezes terminaram relacionamentos afetivo-amorosos e se sentiram sozinhos, sem amigos aqui. Quantas vezes ficaram sós em Brasília porque a família fez uma viagem de última hora e pensaram que iam morrer de tédio e de solidão? Essa reflexão possivelmente trará concordância em meio a discordância.

Não quero advogar a causa dos insatisfeitos com essa cidade que é sua, que também é minha, que é nossa. Estou apenas propondo uma reflexão sobre como nós temos nos relacionado com as pessoas a nossa volta quando e enquanto estamos aqui. Para ser mais incisivo, você cumprimenta o seu vizinho do prédio onde mora? Sauda as pessoas da empresa na qual trabalha, mesmo sem ter sido apresentada a elas? Você abre espaço para uma brincadeira na fila do super-mercado? Permite a aproximação de uma pessoa na balada e dá assunto para ver se dali pode surgir, ao menos, uma boa amizade? Pense sobre isso, porque essa é a cidade na qual você mora temporariamente ou definitivamente.

Não há dúvida sobre o mal que o isolamento e a solidão fazem ao ser-humano. Para mais detalhes, acesse essa interessante matéria publicada há alguns dias e que, embora conte com dados de outra cultura, encontra tanta similaridade com o que observamos aqui, bem debaixo do nosso nariz (que por vezes, anda bem elevado). www.dailymail.co.uk/health/article-2020305/Beat-loneliness–avoid-stroke-Why-isolation-bad-smoking.html. Se queria alguns motivos além do seu extremo incômodo, estão ai.

A explicação para as pessoas não se relacionarem em Brasília da mesma forma que se relacionam noutras cidades, algumas bem próximas de nós, repousa em vários fatores. Acredito que o choque das diferentes culturas desde o início da construção da cidade pode ser um deles. O funcionalismo público, com seus altos salários e estabilidade, outro. A cultura do estudo e de preparação para passar no vestibular, passar no concurso público, comprar apartamento próprio nas áreas nobres, um terceiro fator… Outras tantas explicações poderiam compor essa singela reflexão. Mas, não estou em busca de explicações. Estou em busca da construção da reflexão que aumente as chances da mudança no repertório de habilidades sociais nessa cidade. Digo isso para você que está lendo e para mim mesmo, pois hoje não cumprimentei tanta gente quanto deveria após ter saído do meu apartamento mais cedo e ter ido ao parque da cidade.

Estou certo que você não quer se sentir só, nem quer que os seus se sintam assim. Que tal, então, observar mais ao seu redor e cumprimentar mais as pessoas, receber o novo colega de trabalho, apresentá-lo, inserí-lo no seu ciclo social? Mas, se você é exatamente aquele que está só, que tal sair de casa, colocar um sorriso no rosto e tomar a iniciativa de interagir? Sim, cumprimente o vizinho, a vizinha, o colega de trabalho que passar por você correndo, acene para o conhecido da academia! Estique a conversa pelo simples prazer de papear sobre cinema, música, política, economia, comportamento humano ou qualquer coisa que gere relacionamento. Se assim não for, pouco estará fazendo para mudar a idéia de que Brasília é a capital da solidão.

Tenha um bom dia e espero poder te cumprimentar quando eu te encontrar pela cidade.

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