Mentira: Por que as pessoas mentem?

Artigo publicado em: 26/04/2005

A Definição de Mentira

mentiraDe acordo com o dicionário Michaelis, mentira significa o ato ou efeito de mentir; afirmação que se opõe à verdade; informação enganosa ou controvertida; aquilo que dá falsa ideia; o que ilude; ou opinião sem fundamento.

Logo permaneceria a pergunta: – Por que as pessoas mentem? Por isso, vamos apresentar uma definição relacional, a partir do conceito de comportamento verbal. Beckert (2004) propõe que mentiras, promessas não cumpridas e omissões podem ser compreendidas quando se investiga a relação entre o comportamento verbal e o que se faz.

Por isso, o comportamento verbal, habilidade altamente desenvolvida, que nos distingue de outras espécies animais, permite solução mais rápida para problemas comuns à espécie ou ao grupo e possibilita transmissão de práticas culturais.

Por comportamento verbal, entendemos todo comportamento de uma pessoa que produz efeitos noutra pessoa antes de produzir efeitos no meio.

As pessoas tendem a descrever o mundo e construir afirmações sobre o funcionamento das coisas. Sobretudo, sobre os seus próprios comportamentos ou comportamentos de outras pessoas, além de acontecimentos de uma forma geral. Essas descrições e afirmações são produtos da interação com o mundo e passam a fazer parte do cotidiano quando aproximam pessoas, geram “assunto” e possibilitam a comunicação.

Dessa forma, observa-se, então, que descrições ou regras formuladas por uma pessoa afetam o comportamento do outro. O exemplo citado trata de descrição coerente com fatos. Mas, e se um marido infiel disser algo como: “Eu juro que não te traí. Você é a única mulher da minha vida!” Essa descrição não se mostra coerente com os fatos. Por quê? É quase irresistível dar respostas como “porque ele é um mentiroso” ou “porque ele é um canalha”. Mas dizer que alguém é mentiroso ou canalha não diz muito sobre os motivos da mentira.

Por que as pessoas mentem?

Há uma área de pesquisa em psicologia que se chama “correspondência entre o fazer e o dizer”, que investiga as variáveis relacionadas ao que se pode chamar de “dizer a verdade” ou “contar mentira”. Estudos (Paniagua, 1989; Lima, 2004) têm investigado situações geradoras da apresentação de relato coerente (verdade) ou relato incoerente (mentira). Os parágrafos a seguir estão baseados numa interpretação dos achados desses autores.

Pode-se dizer que há uma dicotomia, que seria falar a verdade. Ou seja, descrever de forma coerente fatos acontecimentos comportamentos ou contar mentira, que seria apresentar uma afirmação pouco adequada ou incompatível com o que, de fato, ocorreu.

Tanto falar a verdade quanto contar uma mentira, são comportamentos verbais aprendidos e mantidos pelas conseqüências que produzem, em primeiro lugar, para aquele que fala. Assim, se alguém é beneficiado por contar uma mentira, tal comportamento pode ser aprendido. Se mentir mais vezes trouxer “vantagens”, ele será mantido em alta freqüência.

É importante, ainda, considerar que o comportamento de mentir pode afastar ou adiar conseqüências desagradáveis. Como no exemplo do marido infiel que insiste em dizer à sua mulher que não cometeu traição. Assim sendo, mentir também seria aprendido e mantido.

As crianças mentem com freqüência para seus pais. Quando estes costumam repreendê-las pelo que fazem; quando punem deliberadamente seus relatos sobre o que consideram ser errado ou quando limitam muito as possibilidades sobre o que as crianças podem fazer.

É necessário diferenciar o comportamento de mentir enquanto relato em desacordo; do relato impreciso sobre algo pela falta de habilidade em descrever. Na mentira, uma pessoa tem consciência de que (sabe que) sua descrição não é coerente com o que fez.

Você quer que as pessoas digam a verdade?

Os psicoterapeutas procuram ter, na relação com seus clientes, uma audiência não-punitiva. Isso significa ouvir e não julgar, ouvir e não criticar, ouvir e não punir. Tal contexto é que torna possível o relato do cliente sobre coisas que não seriam ditas nem para os bons amigos.

Como foi afirmado anteriormente, pode-se mentir para ter acesso a alguma vantagem ou evitar “mal maior”. Assim sendo, as pessoas têm maior probabilidade de dizer a verdade diante de contextos em que o que elas dizem não é julgado, não é criticado, nem punido. Se um pai pune o filho quando ele relata que assistiu TV quando deveria estudar, é importante observar que ele puniu o comportamento do filho ter feito o que não devia, mas, puniu principalmente o comportamento de dizer a verdade. Pense, após ter sido punido por dizer a verdade, você a diria novamente?

É claro que nem sempre se pode aceitar a verdade sem que algum tipo de sanção seja administrada. Mas, se todo relato de alguém sobre o que fez ou como agiu diante de uma situação passa a ser criticado, julgado ou o relato passa a ser motivo para uma discussão, é provável que esse relato não ocorra mais ou que passe a ser um relato que apresente algo diferente do que ocorreu.

Outra forma de diminuir a probabilidade de dizer mentiras é enaltecer os momentos em que a verdade é dita. Por isso, elogiar; enaltecer e gratificar relatos mais próximos da experiência estabelece condição para a aprendizagem do “dizer a verdade”.

Inpa- Instituto de Psicologia Aplicada- Brasília

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21 dez2013
Paula Silveira

Ótimo texto!
Bem esclarecedor e até aconselhador.
Parabéns.

    26 dez2013
    Fábio Augusto Caló

    Paula, muito obrigado pelo seu comentário. Será um prazer receber novas interações suas por aqui. Questione ou dê feedback sempre que desejar. Um forte abraço!

1 fev2014
dulce maria irineu

adorei o texto,continui assim!:D

    27 mar2014
    Fábio Augusto Caló

    Dulce, obrigado pelo comentário. Um abraço para você. 😉

26 ago2014
William

Mt bom… Esclarecedor, facil entendimento vlw!!

    7 fev2015
    Fábio Augusto Caló

    Obrigado, William. 😉

1 jun2015
mary

Fabio, parabéns pelo o artigo de fácil entendimento ate para os leigos na área de Psicologia. Por gentileza, mande por e-mail os cursos on-line para publico em geral.
Um abraço,
Mary

    23 jun2015
    Fábio Augusto Caló

    Obrigado, Mary, pelo feedback. Ele é importante. Certo, manterei contato.

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