A punição física é a solução?

A punição física

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Medidas punitivas são práticas educacionais milenares, bastante arraigadas na sociedade.

Seja concebida como medida acessória ou como prática essencial na educação dos filhos necessita discussão. Verifica-se que em alguns momentos existe um limite tênue entre a palmada, a surra e os maus tratos à criança ou adolescente.

É importante destacar que a maior alternativa para a punição corporal é um conjunto de atitudes preventivas dos pais, como:

  1. Clima familiar amistoso, com muito diálogo (comunicação positiva);
  2. Envolvimento e participação na rotina infanto-juvenil;
  3. Estabelecimento de regras claras e consistentes (adequadas à faixa etária);
  4. Tolerância emocional;
  5. Demonstrações de afetos;
  6. Reconhecimento dos comportamentos adequados realizados (imediato à ocorrência) e

Práticas punitivas em geral, se forem inevitáveis, devem ser utilizadas como último recurso, esporadicamente, pelas mesmas razões apontadas anteriormente.

O termo práticas educativas parentais denomina uma série de comportamentos que os pais apresentam na criação de seus filhos. Tais atitudes são transmitidas de geração em geração. Não pela via genética, mas pelo fato de o sujeito aprender tais comportamentos na convivência com seus antepassados imediatos, e assim sucessivamente.

E o mais importante de tudo: o pai extravasa suas emoções e a criança continua sem entender o que fez de errado e como poderia fazer diferente.

Comunicação positiva

Contrapondo a punição corporal e a agressão verbal, tem-se a comunicação positiva. Termo que descreve o diálogo claro, apropriado à faixa etária dos filhos. Que tem o objetivo de revelar os desejos e as emoções de forma adequada, sem causar danos ao ouvinte.

A comunicação positiva quando os pais destacam o que a criança deve fazer, explicam o por quê, suas consequências e apresentam uma alternativa.

Como pode ser verificado, diante de um comportamento inadequado deve-se ter autocontrole não somente para o comportamento motor, mas ao verbal também.

Uma boa qualidade de diálogo é uma prerrogativa para que também haja seguimento de regras. Através dele, as regras familiares são repassadas, relembradas quando necessário e supervisionadas quanto ao seu cumprimento.

Caso não haja o estabelecimento de regras, como será possível uma criança perceber que burlou uma norma? Daí a importância de que elas sejam bem claras, coerentes à idade, consistentes e realistas. Diante de crianças menores, a clareza deve ser fundamental, em frases sucintas.

Já em crianças maiores, pode-se explicar o que foi feito de inadequado, colocando as consequências para evitar uma próxima ocorrência. Ou mesmo nessa, caso a regra já tenha sido exposta anteriormente à criança).

Caso você tenha estabelecido uma consequência a algo que é inadequado, não se deve mudá-la por conta do seu humor. Regra é regra, e caso haja descumprimento, deve ser devidamente consequenciado. No entanto, o mais importante de tudo é que, caso haja cumprimento da mesma, é necessário o reconhecimento social do que foi feito adequadamente.

Esta, aliás, é uma grande dificuldade humana: a tendência em deixar passar o que está bom ou o que é adequado e dar mais atenção ao que poderia ser melhor, ou o inadequado.

No caso dos pais, quando a criança se comporta bem, muitas vezes não há elogios ou reconhecimento social. Entretanto, diante de uma travessura ou de algo inadequado, os pais usualmente conferem mais atenção que, mesmo negativa, possui um efeito significativo na criança. Sobretudo se usualmente ela não tem atenção daquele porte.

Quais são as consequências da punição física quando ela é adotada no manejo de comportamentos inadequados?

O primeiro efeito observado é o resultado imediato: o comportamento inadequado é prontamente suprimido. Por exemplo, quando um pai surra uma criança por esta bater em seu irmão, é possível que a criança não tente fazê-lo novamente.

É um efeito que acaba fortalecendo o comportamento do agente punidor, pela sua própria eficácia. No entanto, o comportamento inadequado pode reduzir a frequência inicialmente, mas pode voltar a ocorrer.

Ao ter seu comportamento punido, a pessoa aprende que não deve se comportar daquela maneira. Pois assim teria punição, pelo menos diante daquele que puniu.

A criança pode não repetir o comportamento o na presença do pai para evitar a punição. O que não quer dizer que deixará de  fazê-lo diante de outra pessoa.

O que a população comumente defende ser a mais efetiva prática educativa, na verdade ocasiona uma operação de esquiva das consequências aversivas, tão somente, e não uma aprendizagem quanto ao modo certo de se comportar.

Assim, outro efeito que pode ser observado na punição corporal é que, por não aprender a se comportar de modo adequado, a pessoa pode buscar outras maneiras de fazer exatamente o mesmo, sem ser descoberta.

Na punição física, também se observa efeitos ligados às emoções de quem a recebe. A criança ou adolescente pode ter raiva do agressor, sobretudo quando ela não sabe a razão da agressão.

A partir do momento em que pais associam amor à dor, como ao dizer “eu te bato porque quero seu bem”, a criança aprende que quem ama pode machucar. O que pode trazer disfunções em outros relacionamentos futuros.

Excessos de punições corporais também apresentam o risco de a criança desenvolver em longo prazo comportamentos antissociais, como mentir, enganar, provocar e também reproduzir a agressão com outras pessoas.

Uma última consequência é a baixa autoestima: os excessos de eventos físicos aversivos podem produzir culpa, vergonha, crenças de baixa valia e de que seus comportamentos nunca são bons o suficiente para seus pais, o que repercute negativamente no autoconceito e em como a pessoa se apresenta socialmente.

Aqui vem uma provocação: qual é o limite entre a palmada e a surra?

Os preditores da punição física são: irritação; raiva; estresse; mau humor; doença e infelicidade dos pais, dentre outros fatores.

Dessa forma, percebe-se que ao punirem fisicamente seus filhos, os pais estão emocionalmente alterados. Então, o limite de uma modalidade para a outra é a força física. Inversamente proporcional ao autocontrole e diretamente proporcional ao humor dos pais.

Assim, é mais provável que haja uma palmada em infrações leves ou diante de um autocontrole maior da força e das emoções. E uma surra diante de infrações mais graves, quando os pais estão de mau humor e quando não dosam o controle do castigo físico.

Quando os pais descontam nos filhos suas irritações, encontram uma maneira de extravasar suas emoções. Muitas vezes, é para obterem alívio da raiva que pais adotam a punição física. Dessa forma, a punição corporal abandona o aspecto educativo e se aproxima de agressão por envolver o autocontrole dos pais.

Além disso, observa-se o limite tênue entre palmada e surra também quando há uso frequente dessa prática. Por exemplo, se uma criança se comporta de forma inadequada e recebe um castigo físico. A cada reincidência, ela pode habituar-se diante dessa prática, de modo que não faz mais o mesmo efeito. Ou seja, não suprime a frequência.

Dessa forma, há uma progressão entre palmada, surra e espancamento de acordo com a ineficácia do método, que muitos pais só percebem quando de fato constatam os danos na criança.

Outro fato a ser observado é a força empregada na punição física e o crescimento infantil.  À proporção do desenvolvimento infantil, maiores são as forças físicas empregadas.

Portanto, a palmada é a parte inicial de uma escala progressiva para a agressão. Os princípios são os mesmos de um espancamento, que é o uso da força e da coerção para intimidar uma pessoa. É difícil delimitar onde termina um e quando começa outro.

Realmente, modelar um comportamento adequado é mais trabalhoso, é muito cômodo aplicar uma punição física. Porém, trazem alguns efeitos indesejáveis e, além disso, podem ser substituídas por outras medidas menos danosas.

Como abordar, então, as ações infantis inapropriadas?

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Uma estratégia que costuma ser efetiva é ignorar o comportamento. Embora pais tenham dificuldades em manterem-se firmes na sua aplicação.  O procedimento é indicado nas condutas infantis em que os pais podem ser indiferentes, como birras, caprichos ou pedidos inoportunos.

Cabe aqui uma observação: inicialmente o comportamento ignorado pode aumentar de intensidade. Mas logo depois tende a desaparecer. Assim, mesmo que dê a impressão que na verdade a criança está piorando basta que os pais continuem firmes, não cedendo à pressão da criança.

O uso de consequências lógicas para as regras também se mostra efetivo. Deve-se descrever o comportamento e as consequências caso haja infrações.

Esta técnica possibilita o desenvolvimento da responsabilidade da criança sobre seus comportamentos. Sem contar que tem efeito se os pais forem consistentes com o combinado. Ou seja, se não se esquecerem de aplicar as consequências.

Retirar a criança da situação por alguns minutos para que ela reflita sobre o que acabara de fazer é também uma opção. Para que haja efeito, é necessário uma preparação ambiental: um lugar sem distratores ou atrativos, em que a criança possa ficar longe dos demais da casa.

Outro método punitivo alternativo é o já conhecido castigo. Esse método consiste em retirar algo da criança diante de um comportamento inadequado.

O castigo deve ser coerente com a idade da criança e com a infração cometida, sendo justa com o comportamento. Mas não com a raiva do aplicador.

Além disso, deve ser imediata ao comportamento em questão e também moderada, para não causar raiva na criança, o que prejudicaria a técnica.

Esteja atento e mantenha a calma.Afinal, são apenas crianças.

Inpa- Instituto de Psicologia Aplicada- Brasília

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